Eu Li: Nós (Us)

Não sei se já ficou claro a você que frequenta este blog, mas David Nicholls é meu autor favorito da vida por motivos de Um Dia. Um Dia foi um livro que li sem saber o que esperar e acabei me apaixonando completamente pela história e narrativa de Nicholls. Isso bastou para que ele passasse a ocupar este  honrado posto em minha lista de autores. Quando soube do lançamento de mais um livro dele, fiquei empolgada, ainda mais por ser um livro pós-Um Dia (e não um dos livros que ele escreveu antes do mega sucesso). Obvio que a expectativa era enorme, e li Nós com muita calma (do mesmo modo que li Um Dia) e agora vim compartilhar minhas opiniões sobre a leitura.

Nós é narrado em primeira pessoa por Douglas Petersen, nosso protagonista. Douglas tem cinquenta e poucos anos, é cientista (da área da biologia) e estava prestes a embarcar com a esposa e o filho numa viagem de trem pela Europa, que ele chamara de Grand Tour. O plano estava perfeito, muitos museus a visitar, muita coisa a relembrar, mas ele é pego de surpreso quando sua amada esposa, Connie, lhe diz que não estar certa de querer continuar casada com ele e que pretende se separar assim que o filho for para a faculdade. Douglas, claro, fica super sem chão porque ele não estava esperando por essa noticia dias antes do inicio da viagem em família - onde ele esperava estreitar os laços familiares antes do filho sair de casa para ir pra universidade. Apesar da noticia, Connie ainda acredita que a viagem é uma boa ideia - um programinha familiar antes de tudo degringolar - e mesmo abalado com a noticia, Douglas concorda em seguir com os planos e talvez, apenas talvez, essa viagem seja a chance perfeita de resolver as coisas e fazer Connie mudar de ideia.

Como quero escrever uma resenha sem spoilers, não vou contar o que acontece, mas quero comentar alguns aspectos do livro que eu curti. Pra começar, devo dizer que a narrativa é feita de modo muito interessante, uma vez que nós ficamos indo e vindo no tempo, com Douglas explicando o que acontece no agora e coisas passadas que de certa forma interferem - ou fizeram-os chegar até - ali. Os capítulos são curtos em sua maioria (adoro isso) e nele vamos conhecendo varias particularidades sobre a vida de Douglas desde que conheceu Connie até o momento que eles estão vivendo e achei muito interessante o livro ser narrado assim porque as vezes a gente está lendo algo e vem o capitulo segundo e BAM! uma revelação simples (ou as vezes não) que muda tudo. A nossa vida não é roteirizada, mas sempre que leio livros sobre a-vida me pego pensando nesse tipo de coisa....
... minha sensibilidade em relação à arte me parece fundamentalmente superficial. Eu não sei bem o que dizer ou, de fato, o que sentir.
Me identifiquei.
Douglas é muito carismático. Admito que tenho certo preconceito com personagens masculinos depois de uma certa idade - não é por maldade, é mais porque sempre fico com a ideia que não vou conseguir me identificar - mas surpreendentemente, gostei de Douglas de cara. Em compensação, realmente não gostei de Connie. Douglas a ama mais que tudo e sempre a descreve com muita admiração - ele parece até bobo de tão apaixonado, mesmo após quase 25 anos de convivência - e o fato de Connie desde o inicio não parecer estar na mesma sintonia que ele, me fez não curti-la como personagem feminina. O mais interessante na narrativa é que, apesar de ser em primeira pessoa, a gente consegue perceber claramente a devoção de Douglas a Connie enquanto também fica evidente que ela não é do jeito que ele a idealiza. Achei esse aspecto especialmente interessante porque o tempo todo Douglas tenta salvar o casamento e eu só conseguia pensar 'sai dessa, Doug! Ela nem merece toda essa dedicação que você disponibiliza'.
— O que você vai fazer durante duas horas?
— Tenho algumas revistas, material de trabalho. Estou com o guia
— Mas você não trouxe um romance?
— Na verdade, nunca fui muito ligado em ficção. - respondi.
Ela balançou a cabeça.
— Eu sempre quis saber quem eram aqueles anormais que não liam romances. E é você! Seu anormal.
Só aí Connie ganhou pontos comigo. rs
... como uma unidade, como marido e mulher, nós encerramos. Demos o melhor de nós, podemos seguir em frente, nosso trabalho está concluído."
A viagem ocorre com vários contratempos e saídas do roteiro planejado com tanto esmero por Douglas e nessa viagem a gente também acompanha o difícil relacionamento entre Douglas e o filho, Albie. Como me apeguei muito a Douglas, Albie também me pareceu muito problemático e não gostei muito dele, a principio. Pra mim é muito complicado esses adolescentes problemáticos e rebeldes porque, embora eu tenha sido bastante problemática, as coisas nunca chegaram a ser como costumo ler nos livros. Na verdade, o que me irrita mais são adolescente de classe média alta que são rebeldes. Albie não me pareceu ter privações durante a infância e mesmo assim é extremamente impaciente com o pai. Mas aos poucos, consegui compreendê-lo porque embora não houvesse grandes problemas financeiros em sua vida, ele sempre se sentiu oprimido por Douglas, por ter uma personalidade totalmente oposta a dele. Albie tem um espirito artístico (como a mãe) e apesar de amar o filho, notamos - e ele mesmo acaba percebendo no decorrer da trama - que Douglas nunca se conformou com o fato do filho não ter desenvolvido características próximas as suas - como o gosto pelas exatas.
De acordo com o professor da universidade, ele "não é um acadêmico natural, mas tem uma maravilhosa inteligência emocional", frase que fez meus dentes trincarem. Inteligência emocional, o paradoxo perfeito!
Toda a trama é muito bem amarrada, contando o que levou este homem - e a família - a tal fim e ao final, eu já havia aceitado Albie - apesar de ainda não concordar com algumas coisas que ele fez! Connie, no entanto, não se redimiu comigo. Senti que ela é uma personagem muito honesta, e mesmo com a narrativa de Douglas, fica claro que ela nunca 'o iludiu deliberadamente', mas o fato dela decidir abandoná-lo e ele ser tão devotado a ela me faz odiá-la. Porque ele é um homem MUITO decente, e valorizo muito essa qualidade num homem. Acredito que a grande verdade sobre o relacionamento deles é que eles não tinham muito em comum, eram praticamente opostos, mas isso por um tempo foi interessante para Connie, só que depois, passados mais de vinte anos, com o filho já criado, ela percebeu que não precisava mais tentar e quis seguir com a própria vida, sem Douglas, sem precisar sempre conciliar as coisas.
Duas almas perdidas se encontrando ou alguma bobagem desse tipo. Mas, na vida real, almas perdidas não se encontram, apenas vagam por aí e, para ser sincero, acho que ela estava tão constrangida quanto eu.
#verdades
Li Nós com muita calma, porque David sempre escreve tramas densas, que me fazem pensar sobre a vida, mesmo quando está apenas descrevendo o dia a dia de uma família. Gosto muito de livros que retratam a vida-como-ela-é, em todos os seus altos e baixos, sem aqueles floreios românticos que - são ótimos, não me entendam mal - costumamos ver em romances. Em comum com Um Dia, acredito que seja exatamente essa pegada VIDA, que vemos em comum. Claro que recomendo a leitura!
O problema de dizer para as pessoas que elas podem fazer qualquer coisa que quiserem é que isso é, objetivamente, factualmente, impreciso. CAso contrário, o mundo só teria bailarinos e astros de música pop.
#verdades2
Nós é um romance emocionante que fala sobre sentimentos e relacionamentos de uma forma franca. O livro tem momentos bem divertidos e outros bem melancólicos e acho que isso é a mistura perfeita pra um bom romance. Pra mim, David Nicholls é um verdadeiro mestre no quesito. Ele fala sobre a vida destrinchando aspectos que nem todo mundo gosta de abordar, sem cair no dramalhão, mas mostrando que os problemas do dia-a-dia podem levar a diversos fins. Leiam!


5 comentários:

  1. Esta é a primeira resenha de leio de Nós e gostei do que li. Estou lendo o livro no momento e estou adorando, acho que é o que mais estou gostando desde Um Dia - esse livro foi único, mexeu bastante comigo.
    Bem, ainda estou pouco antes da metade do livro, superansiosa pelo que virá nessa história. Mas pela narrativa, pela trama e pelos personagens, já posso dizer que com certeza vou amar essa leitura. ^^

    Beijinhos, Livro Lab

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  2. O único livro que li do autor foi Um dia, e estou muito curiosa com Nós. A arte da capa está linda, e pela sua resenha acho que vou gostar muito.
    Beijos, http://www.moleca20.com.br

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  3. Oi Evelyn,
    Amei a resenha! Até hoje só li Um Dia do autor, mas foi o suficiente para virar fã dele eternamente, adoro! Quando ouvi falar desse novo livro, Nós, fiquei logo apaixonada, só pelo fato dele me remeter a Um Dia e isso por si só já valeu! Acredito até que foi uma sacada genial dele ou da editora, sei lá, em fazer a capa do novo livro tão similar ao seu livro de maior sucesso. Espero sinceramente gostar dessa leitura, pois obviamente já consta da minha listinha de desejados.
    Amei de verdade sua resenha e como confio bastante na sua opinião, boto fé que o livro é bom mesmo!
    Beijos

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  4. Eu não conhecia esse livro e gostei do que li em sua resenha. Espero ter a oportunidade de vir a lê-lo

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  5. Evellyn também me apaixonei por David Nicholls depois de Um dia e há muito tempo venho querendo ler Nós, mesmo a história em si não sendo muito atrativa aos meus olhos confio completamente na escrita de David pra me cativar <3

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